Cuidado, Escola!

Os gestos e as falas da gente que habita este livro contam a fábula verdadeira da escola ao dissecar o sistema pedagógico da sociedade capitalista por dentro e por fora. Eles discutem e entre si procuram compreender o que nos ensinam: como é este sistema? De que ele se nutre? Como ele funciona no dia a dia que obriga alunos e professores a lutarem entre si, às vezes, todos contra todos (como é a regra do próprio sistema político que gerou o tipo de escola de que falam)? Quem controla a engrenagem complicada desta máquina? Onde, dentro e fora dela, estão os erros, as mentiras, os desacertos e as contradições que fazem com que, apesar de tudo (de tantos supostos avanços e conquistas), ela continue a ser, por dentro, um instrumento de massacre da pessoa, de sua liberdade e de sua criatividade e, por fora, um instrumento de separação e desigualdade entre as pessoas.
Os autores do livro (com exceção de Babette Harper) foram brasileiros no exílio. Eles viveram longos anos na Europa e nunca deixaram de ser educadores. O que deixaram por lá e pela África foi uma contribuição inestimável para todo um trabalho de reinvenção da educação, em que todos eles acreditam, apesar de tudo, e em nome do que resolveram desenhar e escrever o livro, cujos personagens não apenas “instruem, enquanto divertem”, como se diz por aí, mas justamente obrigam o leitor a pensar a sério sobre o ensino, enquanto pensa que se diverte. O livro foi escrito para leitores europeus e fala das condições atuais da escola europeia. Mas as suas verdades aplicam-se a nós em dois sentidos. Falando do que acontece lá, elas desvendam o mesmo que acontece aqui, só que de modo mais grosseiro, porque, afinal, nós somos “a periferia” do sistema de cujo centro eles estão mais perto. Elas são falas que fazem a crítica de uma educação “avançada” que, às vezes, “ingênuos”, lutamos por alcançar um dia. É bom saber, portanto, com a irreverência criadora destes bonecos e sujeitos, como aprender com as falácias desta educação “dos outros”, “do futuro”, a lutar para corrigir os erros e as mentiras da nossa educação, da de hoje e a de amanhã. É a esta luta “por dentro e por fora”, em nome de uma esperança na educação e no homem que convive com ela, que os autores e sujeitos do livro nos convidam, leitor, ao dedicá-lo a todos nós que rondamos os mundos da escola: pais, educadores e alunos.
Carlos Rodrigues Brandão
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